terça-feira, 23 de agosto de 2011

O tempo escorre das nossas mãos na mesmice cotidiana

O tempo escorre das nossas mãos na mesmice cotidiana, sem tempo para apreciar,  fruir,  compreender as imagens erradias,  despertar nossa poeticidade. Parece que corremos atrás de miragens, porque, uma vez alcançadas, elas se esvaem, se “desmancham no ar” para formarem novas miragens mais à frente, onde, alucinados, esquizofrênicos, pomo-nos novamente a persegui-las.
                  Mas o tempo não espera e a identidade não se fixa em meio ao caos de nossos devaneios, ora somos cartesianos, ora somos poetas enlouquecidos, ávidos por aventurar por outros traçados, desconfiar dos caminhos retos, dos contornos fechados e estabelecidos.
                  De repente alguém acena em meio à mesmice que nos acomete, e diz que podemos produzir, que é tempo de despertar em nós as possibilidades criativas há muito reprimidas, diz venha, procure no seu baú os velhos pincéis, os papéis amarelados pelo tempo, o nanquim endurecido, os suportes improvisados, a câmera guardada, o PC que só conhece o editor de textos. Traga tudo isto e vamos nos unir em grupo, porque juntos poderemos criar metáforas, construir sentidos, forjar identidades.
Roucos de tanto silêncio nos apresentamos, as mãos estão pouco hábeis, o corpo inteiro dicotomizado,  os materiais espalhados pelo chão, a mente aguçada, temos que ser professores artistas.
Ana Rita Silva

                  O Gep – Poéticas e Produção em Artes Visuais tem como objetivo formar um grupo de produção artística no Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, constituído de professores da rede estadual de educação. A idéia do grupo é oportunizar a prática artística entre os professores que se dedicam à docência e deixam de dar atenção aos seus processos criativos em arte.
A prática artística acaba sendo esquecida no cotidiano dos professores, que se vêem sobrecarregados de atividades após o término da graduação, sem tempo para estabelecer conexões com seus processos criativos. Assim como esses professores, ao escolher a licenciatura em arte eu esperava poder conciliar o lado poético e a docência, numa retroalimentação que me permitisse ter uma identidade fortalecida como educadora e como artista. A realidade mostrou a sua face, em forma de carga horária dobrada, minando-me as expectativas de conciliar as duas dimensões desse meu ser.
No Gep foi possível experienciar algumas possibilidades em conjunto com o grupo, mas, simultaneamente ao trabalho coletivo, pudemos trabalhar nossas questões subjetivas, nossas próprias metáforas.  Algumas produções foram desencadeadas pelas discussões em foco, por meio de temáticas vinculadas à matriz curricular da área de arte para o estado de Goiás. Avaliando nosso percurso, considero que essas temáticas traziam temas muito complexos, que não poderiam ser abordados em curto espaço de tempo. Apesar de pertinentes, penso que não deveriam tomar a maior parte de nosso tempo, do modo como aconteceu, e que esse tempo deveria ser voltado à produção artística. Outra questão a ser repensada é a fragmentação, uma vez que cada tema desencadeava um processo produtivo, e esse processo era interrompido na próxima aula para inaugurar novo tema.
Considerei como positivo, as visitas que tivemos de artistas de fora, que nos trouxeram suas experiências criativas, compartilhando seus modos de ver e entender a arte contemporânea. Acho que noutra oportunidade poderíamos investir num único tema por semestre, explorando-o cada um ao seu modo, penso também que a produção deve ter continuidade numa única proposta, pois o tempo é curto e não é possível concluir um trabalho de qualidade, que exige pesquisa mais extensa, considerando que nosso tempo disponível praticamente se restringe aos momentos que temos com o grupo.
Por fim, todas as experiências foram muito boas, qualquer uma delas, se fosse única, faria transcorrer o semestre sem nem mesmo ser aprofundada a contento, pois foram todas instigantes e capazes de desencadear inúmeros sentidos e significados. A que mais me marcou foi a da metáfora. Trabalhar com metáforas, para mim, é o grande lance da produção artística, porque nos faz ultrapassar os significados imediatos e a construir novos sentidos  para as nossas experiências.


Ana Rita da Silva
Professora Artista?


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